CINTILAÇÕES...

HÁRPYJA
Escrito por Harpyja às 06h44
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MARLENE DIETRICH PLATZ
Leio num jornal que Maria Riva, filha de Marlene Dietrich, doou para a biblioteca J. Kennedy em Boston, os escritos que Ernest Hemingway enviou à famosa atriz a quem amou numa época da vida. Num deles Hemingway respondia a reclamações dela que cobrava, como toda mulher costuma reclamar - Você me ama? Ao que respondeu - Eu também te amo, beleza indestrutível!. Outra vez escreveu: Nessa vida, Marlene, faça os seus próprios mandamentos de decência e conduta que são tão preciosos quanto os dez mandamentos originais. Nada mais certo para todos nós, pobres mortais oprimidos sob o peso moral de ter de imitar a conduta de deidades inacessíveis. Dizem que Marlene Dietrich tinha preferências bissexuais e ligações com Greta Garbo. E daí? Foi uma mulher que não se embriagou com a fama. Fez muito mais. Resistiu ao rigor moral do seu tempo, enfrentou a seu modo a opressão nazista, teve uma filha chamada Maria, usou smoking como traje, fumava cigarros em longas piteiras e foi amada por Hemingway... Fascinante! Paro e divago o pensamento. Relembro um fim de tarde de outono em Berlim. Era domingo e caía neve. Um grupo de adolescentes esculpia um boneco de gelo em frente ao hotel. Sorri, e juntei-me a eles, tirei meu gorro de lã e o enfiei na cabeça do boneco. Eles riram e bateram palmas. Talvez rissem de mim, talvez do boneco, ou de nós todos, inclusive do boneco. Ou de Marlene Dietrich que lutou para que pudéssemos rir de fartura de liberdade. Em meio aos risos e palmas, emitiam uma algaravia alegre de onde consegui pescar apenas uns esparsos danke!, danke! - "obrigado", "obrigado". Acenei sorridente, já que não podia falar nada que entendessem. A barreira do idioma me limitou a gestos, e considerei que devia tomar cuidado pois os gestos dizem mais do que palavras. Levantei-me a sacudir os braços para espalhar resquícios de neve, tomado de angústia por sentir gelo a derreter-se como vida a escoar-se entre dedos! Bati as mãos com mais vigor e enxuguei-as no cachecol. Aproximou-se de mim uma mulher de meia idade que olhava divertida, à distância. Estendeu-me a mão e fixou-me o olhar. Cumprimentei-a. Falou-me qualquer coisa que não entendi, a não ser pelo tom que era de pergunta. Respondi em inglês que sou brasileiro e nada sabia de alemão. Num tom vivaz, exclamou - Oh! Brasilianer! Apontou para as bandeirolas no alto da marquise do hotel a indicar as nacionalidades dos hóspedes e fixou-se na direção da bandeira brasileira a dizer, agora em francês: - Et voilà!. Surpreendente, pensei eu. Aquela mulher alemã CONHECIA a bandeira do Brasil! Revelei meu nome e perguntei o dela. Marlene - foi a resposta. Retruquei no ato: Marlene Dietrich! Pois se ela conhecia a minha bandeira, eu conhecia a sua atriz mais famosa. E acrescentei - Lili Marlene! O filme e a canção imortal. A simpática mulher era monitora da escola de interior onde estudavam os adolescentes e estavam a visitar Berlim, tal como eu. Tiramos fotos, despedimo-nos e eu saí por ali a andar sem destino, como gosto de fazer em cidades estranhas, e mais ainda sob a neve, que vejo tão raro. Passei pelo Tiergarten, um enorme jardim que dizem ter servido de sítio de caça para os nobres, no passado. Mais adiante tomei um táxi cujo motorista, pela aparência meridional, certamente não era alemão. Um turco, talvez. Fosse o que fosse, o talvez turco abriu um sorriso e se dirigiu a mim num espanhol arrastado. Essa agora! Terei cara de espanhol ou argentino? Como terá ele notado que não sou alemão? E por que teria eu suposto que ele seria turco? Só porque há muitos turcos em Berlim e um deles já foi deputado? Poderia ser egípcio ou iraniano, pois tinha a pele trigueira, e isso não fazia a menor diferença num país que não era o meu nem o dele. Mas, intuições de nacionalidades à parte, o turco arremedava o espanhol e de algum modo também eu um pouco, misturado com o português. Menos mal, pois lhe pedi que me levasse ao "muro". Sim, o célebre "muro". - "E por que não à banda oriental da cidade?" - perguntou o turco. Mesmo que já não houvesse divisões, e que o turco, certamente, quisesse estender a viagem para embolsar uns Euros a mais, tive desejos de sentir-me no tal lado proibido, embora a proibição não fosse para os que moravam na banda de cá, porém para os da banda de lá, que não podiam atravessar para cá, como explicava o turco num espanhol da pior qualidade, como se eu não soubesse aquele trágico enredo tim-tim por tim-tim. Na volta, paramos numa parte do muro na banda de cá, ali deixado a mostrar grafites e pinturas de triste memória. O turco bateu umas fotos minhas antes de dispensá-lo, pois o meu desejo era percorrer aquilo tudo a pé, tocar as mãos no muro, sentir-lhe a textura, imaginar-me a espiar o outro lado, como se tivesse parentes por lá que não pudesse ver, ou se lá morasse uma mulher muito amada e separada de mim por uma estúpida parede em seus dias de glória sombria. Passei por um antigo check point por onde somente podiam transitar as pessoas credenciadas pelos dois lados da própria cidade onde moravam, então sob o domínio russo e americano exercido num país que não era o deles – QUE LOUCURA! Quase anoitecia e o frio aumentava quando me vi com sentimentos nostálgicos em meio a uma praça no lado ocidental. Não era um lugar, digamos, monumental. Ao contrário, era bem simples, com alguns bancos de onde se viam fundos de edifícios altos e alguns carros estacionados. Uma praça, porém, é SEMPRE uma praça com encantos próprios. E esta possuía uma força de mistério além do encanto.
Chamava-se Marlene Dietrich Platz...
Recife 17/7/04
Escrito por Harpyja às 06h41
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NERUDA
Doze de julho, cem anos de Neruda que não se chamava Pablo Neruda porém Naftáli Reyes nascido em Parral, criado em Temuco, terras do Chile que se orgulha de se estender por três continentes, tal como Neruda se estendeu por três casamentos! "Neruda" em louvor a outro Neruda, o poeta tchecoslovaco morto antes do seu nascimento a quem homenageou com seu primeiro livro, o "Crepusculário". Neruda! Neruda! Eu te conheci um pouco ao visitar uma das tuas três casas, aquela de "La Sebastiana", donde pude ver as tuas estatuetas de cavalos, teus sinos, tuas estrelas, tuas miniaturas de navios, a paixão que tinhas por caracóis e as mesmas visões amplas e privilegiadas que contemplavas lá do alto, de Valparaíso, junto com os retratos de Whitman, Rimbaud e Baudelaire. Desculpa, porém Valparaíso não é uma cidade assim tão bela! Apenas um porto onde no passado navios ingleses faziam aguadas em suas andanças marinhas que tinham de rodear a nossa América sulina quando ainda não havia o Canal do Panamá. Mas tu a fizeste uma cidade de encantos com a tua poesia, podes crer! (E sei que tu crês, sim!). Pude imaginar as noites de ano novo que por lá passavas a observar a "armada chilena" a desfilar engalanada sobre o mar Pacífico, pontilhado de pedras negras em riste ousado a servir de ilhas na costa para tantos pelicanos e albatrozes, e gaivotas ferozes, a engolir salmões e congros... Engraçado! Como tinhas paixão por estátuas de cavalos, globos terrestres, miniaturas de navios em garrafas, sinos e estrelas... Dizem de ti, que noutra casa tua, a da "Isla Negra", tens uma estátua de cavalo em tamanho natural que sobreviveu a um incêndio, e que te foi dada por amigos sabedores do teu afeto por "aquele" cavalo que te fascinava desde os dias infantis vividos em Temuco... Tanto que outra paixão tua, o mar (que também é paixão minha), tu às vezes o chamas de "cavalo"! Sim, acho que tens razão. O mar é um cavalo fogoso que salta pedras negras e galopa sobre areias brancas com a crina eriçada a espumar nas corcovas das ondas agitadas. Mas não só de mares, e de casas, e de cavalos, cantava Neruda. De mulheres também cantava! Entretanto nem me quero deter em tais "cantatas" femininas. Até por quê, quantos de nós homens não as temos tantas vezes cantadas e decantadas na garganta, na mente, nos olhos, na alma? Pois é. Prefiro lembrar as tuas outras "cantatas" que embalaram o meu "eu subversivo" nas doces manhãs e nas agitadas noites dos meus já quase longínquos anos juvenis da vetusta e austera Faculdade, que guardo como jóias preciosas em meio a tantos mares cavalgados. Sim, porque subversivo também eras! Tanto que preferiste morrer antes de veres o "teu Chile" pisoteado por botas militares naqueles dias de um 1973 angustiante. Só faltou dizeres como Camões ao sucumbir a par com Portugal sob o tacão dos espanhóis: "Pátria, morro eu primeiro!" Quem sabe se não disseste? Ah! Neruda... Cem anos de ti. Sem anos de ti!
HARPYJA 12-13/jul/2004
Escrito por Harpyja às 03h00
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ANÉIS...
Já se passou mais de ano desde quando eu só suportava o de menos e a ausência do mais. Mas prenunciava desejos intuitivos do após, como se fosse assim uma lembrança ainda não acontecida, espécie de certeza de muitos hojes. Assim estava eu até que a luz criasse novas transparências. Tua imagem se sobrepôs à dela e ganhou contornos próprios, desafiantes, ainda que clandestinos. Teu sorriso pareceu-se com gritos estridentes de socorro que depois verifiquei serem realmente assim, e por isso mesmo um desfiar de choros convulsivos. Perguntei por que choravas e me mostraste uma aliança partida que me lembrou outra que eu próprio usara em tempos idos. Quando te descrevi, porém, meu novo anel, tu me disseste que pouco importava, acatando a realidade com que me apresentei todo sincero em cuidados de não te magoar. Disseste que de mágoas estarias refeita se a minha vontade te aceitasse nem que fosse apenas para a satisfação de desejos aflorados e ardentes. Confuso, não me neguei, embora olhasse receoso para o meu novo anel. Notaste o gesto, e num relance de instinto escondeste meus dedos sob tuas mãos num toque morno e suave como a dizer que aquele novo anel não seria molestado, embora assim o desejasses do fundo da tua alma que dizias profundamente ferida. No silêncio que se formou entre nós, tu te despiste, retirando com muita calma e determinação cada peça de roupa que jogaste aos meus pés como numa entrega suplicante. Deslizaste o corpo nu para baixo dos lençóis à espera do meu agir seguinte, que não poderia ser outro senão o de retirá-los e dedicar-me a explorar tuas entranhas, tanto as do corpo quanto as da alma. Entretanto, sem atinar por que, recobri os nossos corpos numa atitude inusitada de pudor. E retirei da minha mão aquele anel, pondo-o num local seguro, fora do alcance dos meus olhares e dos teus, de modo que, embora sentindo a presença dele, isso não me perturbasse, mesmo sabendo eu que isso nada te importava, pois há muito desprezaras, tristemente, o sentido de valor do que representam os anéis. Foi quando, recobrados os sentidos, percebi teus olhos marejados de muitas lágrimas furtivas...
Recife 10/9/99
Escrito por Harpyja às 06h25
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MEU JARDIM SECRETO
Risos, fragrâncias de Chanel 5 a temperar um ar de erotismo e ELA que passeia descalça, sinuosa e displicente num vestido de rendas brancas e delicadas que pouco lhe encobrem a nudez abrasada da noite passada. Sua silhueta diáfana atravessa os tênues raios de sol refletidos em matizes de ouro e prata no singelo entrelaçado de margaridas que traz como coroa à roda da cabeça. Folhas tenras de papoulas vermelhas e buganvílias azuis movem-se ao livre querer da brisa e se debruçam oscilantes sobre os lilazes que desabrocham nos canteiros do meu pequeno jardim secreto visitado por colibris verdes e azuis, abelhas à cata de néctar e borboletas de asas douradas adejando sobre a ramada espessa do Pau-Brasil entornada para baixo a quase tocar o solo. A refeição de frutas acompanhada de champanhe num balde de gelo sobre a mesinha de ferro de dois lugares, pintada de branco. Ao longe, na surdina, ecoam as "Quatro Estações" de Vivaldi e melodias de Enya. Duas taças cheias transbordam de espuma. Brindamos à lascívia da noite passada, comemos e bebemos à farta. ELA suspira e arrisca um olhar distante. Eu reflito sobre lembranças. Reúno estilhaços de memórias de gentes e lugares. Lembro-me da viagem noturna de comboio a cruzar brumas frias de fim de inverno em Portugal, em busca do aconchego da prima querida que tanto bem me faz nas poucas vezes que a tenho com sua alma antiga a me dar afagos e a lançar bondosas reprimendas quanto aos perigos amorosos que teimo em incidir na minha vida. Comboios... Navios... Aviões... África! Dakar. Eu menino de passagem, as mãos unidas à imaginada segurança que me dava a mãe que ia posar de modelo para uma marca francesa de bebidas num tempo em que ser modelo era pouco mais de um sonho amadorista. Dakar de muros brancos muito alvos, a mesquita e o minarete em frente a confrontar a velha fortaleza dos escravos na ilha ao longe, guardiã de registros horripilantes de um passado ainda presente. Brasília, três horas da madrugada. Da janela do hotel contemplo a Catedral onde, num dia já distante, vivenciei um fantástico transporte de alma que me levou a dimensões incompreensíveis, sob a réstia de sol que se insinuava da cúpula ao centro da minha cabeça. Um compromisso nasceu então, de visitar o templo todas as vezes que a Brasília for e prostrar-me em oração, não necessariamente uma oração religiosa, mas sempre no exato local onde me senti alçado. Nova Iorque, outono, esquilos furtivos a correr no Central Park entre folhas secas enquanto noivos coreanos se casavam ao ar livre. Chile, Puerto Montt e Punta Arenas, de visões dantescas de icebergs e cordilheiras assombrosas sobre os quais os condores pairam em vôos cheios de mistério. Funchal, Madeira, eu adolescente abraçado a Sirena, a namoradinha pouco mais do que criança, contemplo no convés de um navio o afastar-se da cidade iluminada, a brilhar ao modo de pérola minguante que flutuasse como luz intrusa na escuridão do mar noturno. Ao final da viagem nunca mais soube de Sirena! Mas meu grito mental ainda ecoa - onde andará Sirena? Onde estará Sirena? Que foi feito do frescor juvenil de Sirena que tanto me preenchia o peito? Londres, Paris, Lisboa com o Tejo visto do alto como garganta colossal a engolir oceanos. Milão, Verona, Veneza, onde gelei as mãos no verde-escuro do Adriático. O azul do Mediterrâneo. As ondas revoltas do Canal da Mancha. Viña del Mar de pelicanos e gaivotas a caçar salmões nas praias vulcânicas do Chile. Enfim retorno à minha cidade natal, terra muito amada onde vislumbro um campanário amarelo iluminado na madrugada, tenebroso e belo como um farol de almas. De repente chuvas fortes lavam a manhã do domingo e caem sobre nós. Não me importo. ELA se joga ao meu colo. Deixamo-nos ficar à pequena mesa de ferro do jardim onde restam duas taças transbordantes de lembranças.
Recife 7/9/03
Escrito por Harpyja às 05h35
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EQUILÍBRIO DE ENCANTOS
-Harpyja-
Dedilho teclas na madrugada invernosa, componho acordes com letras, quero
sintonizar harmonias. Caem chuvas fortes, observo-as da vidraça, ouço o
compasso forte dos pingos no chão de pedra e o vento a tocar violinos. Em algum
lugar de mim uma criança sonha com jardins, as flores fazem poemas, folhas
palpitam como corações verdes fora do peito. Expostos, como devem ser os
corações. Eu, jardineiro das minhas idéias, a administrar aconteceres, debruçado
no pensamento com a cabeça apoiada nas mãos e uma haste de grama ao canto
da boca que mordisco distraído à espera de estrelas. Reparo que a humidade do
ar ativou o contato de uma das lanternas e fez acender a luz mortiça que eu
pensava queimada mas que agora me surpreende a emprestar um brilho dourado
a cores que eu não distinguia há tempos no meu jardim. Saboreio, pois, restos de
imagens húmidas num pedaço levemente iluminado da noite. Restrinjo meu senso a
olhar sem nada pensar. Não quero perturbar este súbito equilíbrio de
encantos. Canso-me das palavras, desisto das frases e retorno às idéias. Melhor
assim. A criança de que falei, por enquanto dorme e nem sei como descrevê-la,
envolvida em suas próprias oportunidades de reconstruir um mundo dentro de
outro. Ela passará da simples expressão para a razão; do existir para o viver; do
tempo sem tempo para o turbilhão do momento. Mas nesta hora, a projeção futura
da criança é sonho e interrogação. Segue em devaneios inconscientes nas vigílias
do vago. Não ouso acordá-la. Pois sou eu que ainda me resto em matéria.
Também preciso dormir.
Recife, 8/6/2000
Escrito por Harpyja às 03h33
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ALVORADA
De repente sentiu-se surgir de um inexplicável nada. Não sabia de onde vinha, o que era, quem era, ou o que ali estava a fazer, mas isso não lhe despertava nenhum interesse imediato. Até porque apenas se surpreendia sentindo-se "ser", e esse sentir era desprovido de emoções, pois não as conhecia.
Percebia as diversas partes de que era composto e as interligações entre elas. Descobriu-se como um todo unificado e que esse todo estava inteiro dentro de si, pois "estava" e “era” em cada partícula que o compunha, como se não fosse um, mas muitos a viver e a sentir dentro de si, cada um com sua razão, embora em função da unidade que passara a ser desde quando nos seus registros orgânicos ficara gravada a marca de uma soldagem de dois conjuntos a iniciar a forma de um código próprio, que era o seu.
Identificava-se, pois, e compreendeu que, embora tivesse sentido surgir-se, vinha de muito antes, e que já era tudo antes do nada.
E sentia-se ampliar, crescer, embora sem noção de espaço, ainda que percebesse que o todo de que era feito, também era tocado por algo que não lhe pertencia e nem o compunha. Compreendeu então que se achava dentro de um outro todo, num mundo suave, líquido e agradável onde flutuava e podia se mexer com facilidade e conforto, mesmo quando esse mundo oscilava em movimentos que lhe eram incompreensíveis, mas, geralmente, cadenciados, que tinham o dom de induzi-lo a um estado diferente, de quietude, em que se sabia ser semi-inconsciente, muito parecido ao que se encontrava no instante em que se surpreendera surgindo do nada. Com a única diferença de que podia entrar nesse estado de quietude e sair dele e lembrar-se vagamente do que percebera, embora essas lembranças não coincidissem com a materialidade que sentia, pelo que só poderiam ser fantasias, porém que existiam. Caso contrário, não se lembraria delas. Entretanto, tal existência não era material e sim, ideal. Conhecera, assim, o sono e os sonhos e aprendera a noção do tempo, resumida ao antes e depois.
Ao se sentir-ser compreendeu que antes disso não era, ao passo que depois disso passara a ser, e percebeu a noção do nada e do tudo, associando-os ao existir e ao inexistir. “Nada", significava não-ser. "Tudo", significava ser. E que o seu ser aumentava, porque as suas partes componentes se expandiam, à medida que vinha do menos de antes para o mais de “depois-do-antes”, e para outro mais, após o próximo depois. Do que decorreu o conhecimento do passado, do presente e do futuro, da quantidade e do tamanho, do menor e do maior”, do menos e do mais, da soma e da multiplicação.
Compreendeu então a razão do por-quê já se sabia ser um composto de partes que formavam um todo unificado que aumentava gradativamente em todas as direções e descobriu as noções elementares do espaço, da divisão e proporção. E isso lhe pareceu agradável, pelo que “não-isso” seria “não-agradável”, formando-se assim no seu íntimo, o primeiro pré-reconhecimento básico do bom e do ruim, e, por derivação, do bem e do mal.
Por último, entendeu que essas noções eram percebidas apenas numa das partes do seu todo, o cérebro, onde armazenava as informações de tudo o que descobria. Vislumbrou então os rudimentos do pensamento, do raciocínio e da noção de lógica.
Estava assim configurada em si a plataforma básica do conhecimento binário e do raciocínio analógico. Tudo o mais que acrescentasse enquanto existisse, haveria sempre de se ligar de alguma forma às informações até então acumuladas. Que faria com isso? Ainda não tinha a mínima idéia.
De repente percebeu que o mundo úmido que o envolvia, diminuía rapidamente, esvaziava-se, murchava, desaparecia. Logo depois se achou como que deslocado, empurrado, obrigado a girar sobre si mesmo, batendo com a cabeça em algo que abria, e a entrar por essa abertura. O que lhe causou desagrado e insegurança, pois nunca experimentara isso antes. Contudo, não podia resistir ao que lhe acontecia.
Sentiu-se percorrendo algo que o envolvia mais apertado, de uma forma diferente de antes, pois não mais flutuava e sim se movia forçosamente numa direção à frente da cabeça, que assim sabia por ser aí onde já percebera que se alojava a parte do corpo que o fazia conhecer e saber. Mas não tinha noção do que iria lhe acontecer e isso lhe deu uma nova sensação, o medo, que aumentou na medida em que, num último e violento empurrão, notou-se sem nada a rodeá-lo nem a ampará-lo, enquanto as extremidades do corpo que aprendera antes a controlar – pés e mãos – se moviam sem tocar em nada, sem nada a oferecer resistência ou que lhe desse algum apoio.
Por um momento percebeu um novo estado que se poderia chamar de solto, mas que era desconhecido para ele, que o identificou como equivalente ao desamparo, provocando-lhe o primeiro medo de ser livre. Ao que se somou outra forte sensação de desconforto causada pela invasão do seu interior por um fluido desconhecido a penetrar e a preencher uma parte do seu todo, situada logo abaixo da cabeça e que nunca sentira funcionar antes.
Sem nenhuma referência que fosse capaz de associar essas novas e desconfortáveis sensações àquelas outras que já conhecia, tentou expulsar de dentro de si aquele fluido invasor. Mas logo seu organismo o forçou sem que atinasse como, a puxar mais quantidades do fluido para dentro de si, de tal forma que seria impossível impedir que assim agisse. E isso doía na medida em que o fluido entrava e saía, forçando movimentos novos de puxar-esvaziar, magoando-o de tal modo que resolveu reunir forças para tentar parar o sofrimento. O máximo que conseguiu, porém, foi que a passagem do fluido pela garganta fizesse-a emitir uma seqüência de sons estridentes e convulsos que foram percebidos por ele de uma forma nova e muito mais eficaz. Acabara de descobrir o som e a forma de o produzir e ouvir.
Foi assim que se deu conta de existir. Foi assim que nasceu. Foi assim que chorou pela primeira vez. Se já fosse capaz de falar e escrever, teria informações e detalhes suficientes para narrar toda uma odisséia...
Escrito por Harpyja às 06h44
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A MORA DOS MEUS DIAS
Não tenho lá grandes queixas da vida. Aliás, de nada adiantaria, pois se as tivesse haveria de buscá-las no meu interior, eis que sendo minha, a vida, sempre me coube e caberá geri-la da maneira que me melhor me aprouver. Se num ou noutro aspecto, não o fiz do melhor modo que de mim se esperasse, tanto pior ou melhor, depende de quem me queira bem ou mal. E nesse particular, os que, eventualmente, mal me têm quisto, ou, na perspectiva deles, mal me tenham feito ou querido fazer, terminaram por me mostrar os melhores caminhos que poderiam ter mostrado, por meio inverso aos seus "pensamentos, palavras e obras" eventualmente realizados "contra" mim, conforme assim quisessem e assim me parecessem. É fato que o mais que fizeram foi me espicaçar. Acenderam faróis à minha frente. Por isso tenho-os como os meus melhores amigos. Talvez se avaliassem o resultado, não tivessem feito o melhor que fizeram, por pura velhacaria... Em verdade, acho que viver, me tem sido um exercício suave, apesar de algumas dores e desconfortos. Circulo bem entre "possuídos" e "despossuídos", entre "cabeças-coroadas" e "sem-coroa", cá da província, e alguns de fora dela. De modo que daqui não saio, daqui ninguém me tira..., até porque aqui me tenho dado bem e não abro mão das minhas raízes profundamente telúricas. Amo a terra e não a abandono. A não ser por algo que se me afigure por “missão”, mas mesmo assim de temporário. Filho que sou de um - a princípio - pouco abastado, depois bem abastado, e ao final desabastado comerciante de comidas e bebidas, depois de doces e chocolates e chás com torradas e biscoitos e bom-bons, e de uma modelo fotográfico da época em que tal se exercia num quase amadorismo de não muita renda, prefiro ficar afeito às minhas origens íntimas. Considerando que, até que me pudesse suster com os próprios meios, grande parte da minha educação formal em colégios caros foi financiada pelas sobras ricas da embriaguez da alheia "elite"..., ou por luxentos desperdícios de terceiros..., ou pelo modismo supérfluo de sofisticações pretensiosas..., não me posso afastar, pois, do sentimento de retribuir algo bem mais consistente ao ambiente que assim proporcionou encarapitar-me entre as folhagens altas da palmeira, plantada em meio a tantas carências! Devedor que assim me vejo dum acaso social, tenho, obrigatoriamente, de "purgar a mora" dos meus dias.
HARPYJA
11/6/2001
Escrito por Harpyja às 19h17
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SAUDADE
A saudade me invade, em mim se entranha. De nada específico, de ninguém em particular. Apenas saudade mansa, uma saudade imensa, uma saudade alegre, carícia que me arrepia a pele, sopro que dá poder à magia e corpo à imagem. Esta flor nascida nas espirais do vento, que vai, que passa, contorna a vida e sempre me volta, íntima e estranha. Posso te abrir a porta, passageira do tempo... Podes entrar nas lágrimas do meu sorriso, podes trazer o mel e o fel, não importa. Basta que me faças lembrança da própria saudade. Mesmo que o meu espírito em nada pensasse, ele existiria, ausente de todo o sentir, reduzido à resposta, na dimensão da saudade. A morte do absurdo da morte, que é preciso ultrapassar por sobre todos os perigos que na vida há. Alguém que me enxerga com olhos vivazes - só os olhos que vejo - no negrume da noite inexplicável. E de repente, tudo será mais do que fogo no movimento duma dançarina nua transmutada em fera, que guardasse a leveza dum grande pássaro em vôo, mesmo sendo fera, cheia de sangue a pulsar sob as cicatrizes do adeus. Quanto silêncio atento, que fragor intenso, saudade! Doce surpresa, doce saudade...
HARPYJA
1°/8/2001
Escrito por Harpyja às 19h15
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QUANDO EU ME ENCANTAR
Meu filho Paulo. Neste dois de maio do teu aniversário, eu te deixo um testamento prematuro. Não! Não te assustes! Não é premonição! Apenas um cadinho de lembranças a futuro, bem remoto ainda, garanto! Enfim...
Quando eu me encantar, se por aqui por este mundo ainda estiveres, não chores. Melhor rires. Sim! Ri da vida. Porque mais cedo ou mais tarde ela terá rido de ti, não tenhas dúvida. E então, certamente que terás tido de te rires de ti mesmo. É bom curativo.
Quando eu me encantar, se puderes esquece-me, liberta-te da minha memória. Eu a levarei comigo, não te preocupes. Mas se te lembrares de mim, recorda apenas a tua infância comigo. As conversas que tínhamos. Os passeios que dávamos. As fotos que tiramos juntos. Ah! Essas fotos! São tantas e tão poucas... Momentos singelos. Memórias do tempo. Contornos da tua meninice que eu procurei fazer feliz. Se consegui ou não, só tu sabes. Pelo menos, eu tentei.
Quando eu me encantar, não quero pompas nem salamaleques funerários... Gostaria apenas de uma oração nada convencional. Dispenso túmulo vistoso. Enterra-me simplesmente. Basta-me uma cova rasa. Ou, se preferires, manda cremar o ex-meu corpo e espalha as cinzas ao mar num amanhecer bonito de verão, quando o sol estiver bem vermelho, aquele vermelho de sangue molhado de que às vezes te falo.
Quando eu me encantar, não guardes os meus pertences. Dá-os. Assim me libertarás do peso terreno para que eu possa voar muito mais alto. Mas, se quiseres guardar algo de mim, sugiro-te não mais que uma pequena mecha de cabelos, talvez. Entretanto, se for o caso, corta-os agora, enquanto brilham castanhos clareados e viçosos. Não os queiras depois, mortos, esbranquiçados e apáticos, pois nada mais refletirão de mim.
Quando eu me encantar, se for domingo, vai a um parque, dá um passeio por entre as árvores à tardinha e escuta os pássaros. E à noite, olha as estrelas. Se vires o "Cruzeiro", dá atenção à quinta estrela "Intrometida", é aquela que brilha meio deslocada a um lado, um pouco abaixo dos braços da constelação. Pode ser que me revejas ou me ouças, quem sabe? Um "intrometido" no colo das estrelas.
Quando eu me encantar, não precisas visitar os meus despojos. Mas se alguma vez lá fores, nunca o faças nos dias de finados! São dias tristes, que nunca gostei. Espera o fim do ano e, se não te esqueceres, espoca um champanhe qualquer e sopra a espuma. Depois dos brindes, poderás ter a certeza de que eu beberei contigo.
Quando eu me encantar, talvez que alguns amigos e amigas venham te dar pêsames. Aceita. Agradece as mensagens dos ausentes, se as enviarem. São meus poucos amigos e amigas... Será um sinal de que em algum momento, guardaram algo bom de mim. E isso é muito, muito importante!
Quando eu me encantar, se puderes, ouve um disco, de preferência desses de música suave mas alegre. Ou talvez um clássico mais vibrante, o "Adeste Fidelis", por exemplo, ou a "Cavalgada das Walkirias", ou a "9ª" de Beethoven, talvez o "Cravo Bem Temperado"... Ou mesmo nenhum desses, mas um daqueles outros que tu bem conheces - enfim, deixo a escolha ao teu critério dentre os que hoje dizes ser a minha cara. Quem sabe até se eu não te soprarei ao ouvido o que eu queira...
Quando eu me encantar, vai a um cinema e assiste a um filme "romântico", desses "melosos", "açucarados", que fazem chorar de tão "bobos" que são... Ou a um daqueles de viagens no tempo e nas estrelas! Eu estarei viajando ao teu lado, "derretido", "encantado", "abobalhado"...
Quando eu me encantar, vai a uma boa festa, bebe um pouco de boas bebidas e come umas boas comidas - não esqueças o vinho tinto seco! Depois da festa, faze amor com uma mulher - de preferência bela! - com quem te sintas bem. Eu estarei mais vivo do que nunca, serei jovem de novo!
Quando eu me encantar, dá o ombro à tua mãe, se ainda por aí estiver. Eu a terei amado assim meio de repente, numa curva ida do tempo em que procurava esperanças. E nunca te esqueças da tua irmã, que nos chegou mansa como um presente, suave como uma madrugada de verão em busca da certeza de um sol.
Porque, quando eu me encantar, ainda restarei completamente inacabado... Igual aos meus escritos. Tanto melhor que assim seja...
Escrito por Harpyja às 10h12
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BRUXARIA
... Porque Portugal é mágico! Mescla de luz e sombras, de calor e frios amenos,
de tempestades e calmarias, de alegrias e tristezas, lágrimas e risos, um sentir algo
tão profundo e imutável que se torna trágico. Fado, destino ao contrário... Uma
floresta frondosa, povoada de surpresas mas salpicada de desertos ambíguos.
Brasas que não ardem, fogos que não queimam, dores que fazem sorrir. A
essência da saudade que nos vai na mente! Ver lá do alto, a foz do Tejo a se
escancarar toda no oceano, é enxergar o "mar tenebroso" ao inverso, uma árvore
infinita de raízes expostas que se agarram à terra como em desespero... E ao
mesmo tempo, é ver o nascedouro de todas as águas. É ouvir um grito agudo a se
fazer grave, que sai da garganta em ecos insondáveis a rebater nas rochas. Andar
por ruas e vielas de lá, é entrar em cidades de brinquedo, povoadas não por
corpos, mas imagens. Ouvir seus sons, é perceber ecos do oriente. Sentir seus
cheiros, é deitar em terras úmidas, secadas ao sol... Haveria tantas coisas mais a
dizer... BRUXARIA!
Escrito por Harpyja às 10h07
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ECOS DAS MÃOS DA PIANISTA
Dias chuvosos. Manhãs escuras. Tardes-noite. "Garoa" renitente que esfria o tempo e molha os ossos, insinuadas em gotejos a invadir intimidades. Própria de dias paulistas. De semanas londrinas. De meses de Murmansk, talvez onde velhos submarinos flutuem amarrados a abitas de ferro enegrecido. Ando por calçadas molhadas vendo meus pés avançarem em sapatos, como quilhas de barcos brilhantemente negros, a sóbria cor do negro. Meu corpo é a vela que me impulsiona. Seguro amarras a impedir que lufadas loucas de ventos sudestes adernem meu barco e o façam naufragar. Navego no tempo a controlar forças repentinas. Possuo minhas próprias abitas, mas não tenho certeza de que resistirão aos impulsos inesperados dos ventos. Amanhã será sábado, o dia mágico. Terei de usar de grande habilidade para conseguir me equilibrar com um mínimo de altivez nos meus papéis. A condição de prosseguir viagem. Cheiros de cidade me lembram gaivotas que mergulham nas águas à caça de peixes. Emergem com eles presos ao bico. Anteontem, meus ouvidos aprisionaram um concerto de Beethoven em pleno teatro reinaugurado. Do camarote onde estava, meus olhos fotografaram a (fr)agilidade das mãos da bela solista ao piano, vestida de negro sobre decotes alvos nos ombros e no peito, a deixar entrever promessas de seios generosos. Eram mãos fidalgas, mãos de artista, mãos esquivas, a escapar da rudeza do mundo, correndo sobre o teclado branco de um piano negro de cauda longa. Duas lebres fugidias a saltitar sobre uma estrada de neve imaginária. Um redemoinho de tons em harmonia. Um som grave de engrenagens a vapor. Um trinado de passarinhos. Um pingar de lágrimas. Uma cadência de chuvas. Ecos das mãos da pianista.
Escrito por Harpyja às 10h03
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CORRENTES SUBMERSAS
Afinal, estão apagadas as luzes do casario à minha volta. Há um silêncio escuro e
insondável que aceita estar no mistério do mundo, tangível sob o invisível. Não me
atrevo a lhe estender a mão, receio que ao tocá-lo, não encontrasse algo sólido,
mas viscoso e morno como criaturas de consistências ignoradas, a se
movimentarem com a lógica desconhecida de um sem nexo aparente. Prefiro
conviver com esse silêncio suspenso e parado, sem reconhecê-lo (pode me trazer
surpresas desagradáveis que não estaria preparado para encará-las, pois já me
faltam os risos e os choros de criança). Estou com as minhas fatalidades e não
quero violentá-las, pois creio que não devo deixar manifestar-se o inconseqüente
habitante de mim. É preciso discernir audácia de temeridade. Há um silêncio mais
que profundo no som de sinfonias e concertos. Eis que desdobram num feixe de
acordes, os mais longínquos horizontes do universo mudo e surdo aos ecos do
tempo. Em que reino impera a noite, afora o dos sentidos que não percebem a luz
oculta no fundo do abismo abissal das cores? Enveredo carregado de perguntas
pelas aventuras de adivinhar a incoerência das cores e a crescente agudeza dos
sons que por tanto se fazem inaudíveis, e não acho uma única resposta que seja.
Porque não há realidade sem mistérios, e estes nada dizem nem respondem. Muito
mais perguntam a quem lhes pergunta. Permito-me a mim mesmo afeiçoar-me aos
sentidos do imaginado, pois tenho de inventar a cada instante o meu destino por
entre silêncios desconhecidos e cores apenas cores, de imperceptível essência. Eu
me liberto justamente na ausência de conhecer presentes, passados e futuros. Não
há tremores, nem horrores, nem terrores. Desprezo os sentires falsos do que se diz
real. Tudo é silêncio e caos. Flutuo envolto em névoas sobre o fluir de correntes
submersas. Cada movimento meu produz o som de mil sinos a quebrar silêncios e
a reordenar cores embaralhadas. Existo nos sensos abstraídos do concreto.
"Navegar é preciso, viver não é preciso"...
Escrito por Harpyja às 09h52
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QUIMERAS
Quando ela me entrega seu corpo, eu me desfaço em líquidos que molham verso e
anverso, na expressão dum instinto reverso...
Quando ela recebe meu desejo, sinto-ressinto os sentidos ligados ao destino que
pressinto...
Quando ela me acalma o senso, penso-repenso nas dobras do tempo, pingando na
vida um odor de incenso...
...Na parede, a contra-luz,
sombra e imagem projetadas
de dois corpos
despidos...
Dois gatos pretos,
duas panteras,
que se agitam,
tecendo quimeras...
Escrito por Harpyja às 09h50
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CHOVIA CEDO ESTA NOITE
Chovia cedo esta noite.
Uma chuva de pingos finos e cinzentos,
intermitentes, como usam ser no fim do verão.
Eu, na faixa cinzenta de alfa
de um pré adormecer
povoado de sonhos reais-imaginários.
De repente, um ronco baixo de carro parando,
um bater discreto de porta metálica,
passos nervosos na calçada,
um só toque leve e rápido na campainha.
Sim!!! É ela que me surpreende com suas tantas surpresas!
Numa jaqueta preta de couro quase fosco
que eu me apresso a correr o zíper
em meio ao seu sorriso infantil.
Enquanto solta os cabelos...
Enquanto me cobre de zelos...
Enquanto joga longe os sapatos...
Enquanto procuro seus pêlos...
(AAAhhh!!! Esse bendito fechecler
que afinal deixa livres todos os seus dotes...!)
Cavalgamos ofuscantes como raios
por montanhas, picos e vales
que se erguiam e se aprofundavam numa planície multicor,
varrida pelo ar gelado das nuvens
aquecido de repente por nossos corpor nervosos,
impetuosos, ansiosos...,
de arrepiar nossas penugens...
Uma explosão mútua nos uniu e pegou súbita,
a fazer em nós, paz ofegante.
A preparar outra escalada,
dessa vez serena e plena de nuanças,
como o vaguear lento de águias
a sobrevoar a madrugada...
Queridíssima amiga!
O sol vem quase saindo e a chuva cessou.
Dois galos cantam... meu cão fiel se deitou...
Ela já saiu,
jaqueta de couro displicente sobre as costas...
Quanto a mim, corri a dedilhar teclas...
Como se fossem harpas,
tocando alto minhas notas...
E pensei, cantarolando alegre e leve:
MEU DEUS, COMO É BOM TER UM TECLADO...
Escrito por Harpyja às 09h42
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QUAL A ESSÊNCIA DA CAPTURA?
Qual a essência da captura?
A lua que encobre o sol?
Ou o brilho cintilante das estrelas?
Os mergulhos certeiros das gaivotas?
Ou a determinação do vôo das águias?
A imagem malévola de um antigo homem de preto?
Ou a leveza da nudez de duas jovens mulheres?
O despertar na madrugada?
Ou o adormecer na manhã?
A ânsia do antes?
Ou a vivência do depois?
Uma flor que se dá?
Ou uma flor que se recebe?
A dança de pares vestidos?
Ou os embates de corpos nus?
Um rosto gravado na multidão?
Ou um corpo extraído do nada?
Um encontro inesperado?
Ou o instinto extravasado?
A certeza do ontem?
Ou a espera do amanhã?
Um sonho imaginado pela mente?
Ou o ímpeto do gozo iminente?
Olho o teto... e me deixo flutuar em devaneios...
Ela, que dormitava leve e nua ao meu lado,
de repente me flagra, divertida...
Passeia seu olhar pelo meu corpo,
tateando de leve a minha nudez...
Como num facho de luz repentina,
vejo de relance a essência
da captura...
Inexplicável...
Escrito por Harpyja às 09h30
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ELA, MULHER
Não, ela NÃO representa o imaginário... Ela concretiza as fantasias no diário...
Não, ela NÃO é ideal, apaixonada... Ela é fatal, determinada...
Não, ela NÃO é suave nem distante... Ela é rude e provocante...
Não, ela NÃO é fascínio ou devaneio... Ela é carne, pulsante de anseio...
Não, ela NÃO é miragem ou imagem... Ela é corpo, com ou sem roupagem...
Não, ela NÃO se entrega com cuidado... Ela é um imenso pecado rasgado...
Não, ela NÃO é nenhuma deusa do Olimpo... Ela usa e abusa do instinto...
Não, ela NÃO é a musa inspiradora... Ela é a realidade duradoura...
Não, ela NÃO é um anjo benfazejo... Ela é fêmea desvairada de desejo...
Não, ela NÃO deixa para amanhã quando podia gozar ontem... Ela tem grande
fome de homem...
Não, ela NÃO se contenta com meros acenos... Ela tem gozos obscenos...
Não, ela NÃO se limita sempre ao costumeiro... Ela varia o rotineiro...
Não, ela NÃO habita distâncias infinitas... Ela pinota no meu corpo em cios de
cabrita...
Não, ela NÃO esconde nunca seus orgasmos... Ela geme e se debate feito louca
em seus espasmos...
Não, ela NÃO é furtiva concubina... Ela me devora inteiro, devassa e libertina...
Não, ela NÃO me usa nunca com recato... Ela faz de mim gato e sapato...
Não, ela NÃO é a Frinéia ideal... Ela é mulher real...
Escrito por Harpyja às 09h26
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SCHERAZADE
Às vezes, sua juventude nua diante de mim, toma um sabor amargo de agressão...
Quisera ter o frescor da sua idade, as inconseqüências da sua mocidade, saborear
os frutos da sua ingenuidade...
Em momentos assim, fico inseguro, inquieto...
Eu me vejo como seu brinquedo, talvez brinquedo predileto, mas tão só
"brinquedo", ainda que dileto...
Ela nota meu semblante, veste as peças íntimas, rendadas, pretas ou vermelhas,
semitransparentes, a contrastar com sua alvura. a realçar o corpo firme em
desafio...
É quando assume ares divertidos, acaricia meu rosto, saca os meus sentidos, e
sussurra ao meu ouvido atento, que deseja apenas ser a minha Scherazade... Ouvir
chamar seu nome no silêncio da noite... Tomar sua vida a cada açoite do meu
corpo, como ondas do mar vencendo a praia... E no fim de tudo, deixar a chuva
que vem de mim, regar suas entranhas de "mãe terra"... Palavras dela...
Escrito por Harpyja às 09h22
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A EFEMERIEDADE DAS COISAS E DOS AMORES...
Sou consciente da efemeriedade das coisas e dos amores...
Pois sei, perfeitamente, como ambos funcionam.
Avalio com grande chance de acerto, que um dia, uma noite, uma madrugada qualquer,
talvez não muito longe,
ou, quem sabe, infinitamente distante,
um de nós voará
em busca de outros “horizontes encantados”...
Enquanto isso, eu me fascino com a sua nudez
e ela passeia suas mãos distraídas de jovem, pelo meu corpo.
Explora-o, sente-o, como novidade... (Para ela, tudo sabe a novo...)
Ela tem o cheiro da terra,
e diz que tenho um certo ar de espaço
que lembra estrelas.
Eu a cavalgo, beijo suas bocas,
ela me cavalga, sorve o meu mel com suas bocas,
e nós nos provocamos loucuras.
E é nesses momentos que orgasmos viram gozos...
Entro nela como as raízes na terra,
e ela me recebe como a morte acolhe a alma,
como se fosse por toda a eternidade...
Mas, dizer “como se fosse”, é afirmar o que não é...
Por isso não temo a efemeriedade das coisas e dos amores.
Escrito por Harpyja às 08h00
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A MARCA DA LOBA
Quando lhe arrebatei a chave do seu jardim secreto, ela me sorriu surpresa,
demonstrando ser esse o querer de sua íntima certeza...
Uma certeza tão íntima e tão certeza, que inundou seu rosto de rubores e risos
nervosos, convulsivos, tremores e suores compulsivos...
Invadi seu corpo com a impetuosidade do macho em invernada, determinado a
saciar-lhe muitos cios cumulados... Ela cruzou as coxas sobre mim, cravou as
unhas em meu corpo deixando extensas marcas em meu dorso... Entre gemidos
roucos e espasmos loucos, seu ventre impetuoso se apoderou do meu desejo
inteiro...
Assumiu depois em minha cama, a pose atrevida da "Maja Desnuda", possuída da
súbita certeza de me ter cativo...
Seus gemidos e suspiros ecoaram então nos meus ouvidos, como os uivos e rosnados
decididos da jovem loba a marcar o novo território...
Escrito por Harpyja às 07h56
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JARDINS E MULHERES
Entre jardins e mulheres, algumas flores existem, muitos perfumes se sentem,
suspiros de gozo se ouvem. Nunca passo indiferente na frente de uma mulher nem
de um jardim. Das mulheres porque, mesmo quando não lindas, têm ao menos a
singeleza das flores e guardam sempre uma espera. Dos jardins porque, por mais
simples que sejam, por menos trato que tenham, nunca merecem indiferença,
jamais. Nos jardins e nas mulheres, existem relvados a ser cultivados e cultuados.
E detalhes a explorar. E recantos a invadir. E pedras a afastar. E caminhos a
percorrer - mesmo quando não levem a lugar nenhum. E folhas secas no chão - à
espera de serem varridas. E sempre uns bancos para sentar, descansar, ver a
paisagem de muitos ângulos, seja dia ou seja noite, faça sol ou faça chuva, entre
brisas ou ventanias. E mais talvez - quem sabe, encontrar de surpresa - uma fonte
murmurante? Ou uma lágrima de saudade? Ou uma aflição no coração? Ou uma
lua em desvario? Ou uma antiga visão do pecado? Ou uma nova versão do
passado? Sempre as há nos jardins das mulheres...
Escrito por Harpyja às 07h45
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EQUILÍBRIO DE ENCANTOS
Dedilho teclas na madrugada invernosa, componho acordes com letras, quero
sintonizar harmonias. Caem chuvas fortes, observo-as da vidraça, ouço o
compasso forte dos pingos no chão de pedra e o vento a tocar violinos. Em algum
lugar de mim, uma criança sonha com jardins, as flores fazem poemas, folhas
palpitam como corações verdes fora do peito. Expostos, como devem ser os
corações.
Eu, jardineiro das minhas idéias, a administrar aconteceres, debruçado
no pensamento com a cabeça apoiada nas mãos e uma haste de grama ao canto
da boca, que mordisco distraído à espera de estrelas. Reparo que a umidade do
ar ativou o contato de uma das lanternas e fez acender a luz mortiça que eu
pensava queimada, mas que agora me surpreende a emprestar um brilho dourado
a cores que eu não distinguia há tempos no meu jardim. Saboreio, pois, restos de
imagens húmidas num pedaço levemente iluminado da noite. Restrinjo meu senso a
olhar, sem nada pensar. Pois não quero perturbar este súbito equilíbrio de
encantos.
Canso-me das palavras, desisto das frases e retorno às idéias. Melhor
assim. A criança de que falei, por enquanto dorme e nem sei como descrevê-la, ali,
envolvida em suas próprias oportunidades de reconstruir um mundo dentro de
outro. Ela passará da simples expressão, para a razão; do existir para o viver; do
tempo sem tempo para o turbilhão do momento. Mas nesta hora, a projeção futura
da criança é sonho e interrogação. Segue em devaneios inconscientes nas vigílias
do vago. Não ouso, pois, acordá-la. Pois sou eu que ainda me resto em matéria.
Também preciso dormir.
Escrito por Harpyja às 07h40
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ASAS DE ÁGUIA
Quando ela está comigo, sinto asas de águia se abrirem nos meus ombros, que me
levam a navegar mares nos ares, onde penetro arcoíris de desejos ansiados...
Eu e ela, fatos reais, de sonho impregnados. Corpos nus em pêlo, à rédea solta
cavalgados. Dois corcéis alados, fogueados...
Assim construo emoções e fados...
Escrito por Harpyja às 07h35
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